sábado, 3 de março de 2012

Grampo de segurança.

- Como é que um soldado em guerra permanente se há-de alimentar sem ser com o ódio?
- O ódio é mais autodestructivo, se exceder um determinado tempo a granada explode na tua mão. a raiva é que ganha batalhas. a raiva e a revolta. os rosnares e os rufus. mas claro, é preciso saber canalizá-la senão também te explode na mão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

.

Já é altura

de tirares as rodinhas de segurança

da tua vida.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Efémero enleio

O desamor é sempre igual. Por mais floreados que lhe acrescentemos, independentemente dos gemidos carpidos ou reguardads em silêncio resfolgante, o desamor é sempre igual: dói. Ponto final. E a dor não se mede em minha, tua, nossa - não há determinantes possessivos nem sintaxe que valha ao desamor. Dói e não há artefactos que o amaciem, o único a fazer é deixar arder. Expor a ferida ao ar e á bondade próspera da cura ajuda á cicatrização; evitar meter o dedo na ferida também.
O desamor dói e até ganhar crosta precisa de cuidados e paciência, quando faz comichão - sobretudo quando faz comichão. Deitar-lhe unhas é perder tempo, é estragar caminho. O trilho é sempre o mesmo, por muitas veredas flamejantes de salvação que se nos apresentem. Vergar silvas e mato só polui a atmosfera da dor, negra por si só. O desamor é sempre igual, sempre que haja amor. Dói. Arde e é visceralmente desconcertante e pede algo que nunca ninguem tem, ao sentir-se desembaínhado - Tempo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Atestar o depósito !

Sobre o ego: deve andar sempre próximo do equilíbrio, a meio depósito quanto muito. Baixo não é bom presságio, pode parar a engrenagem. Cheio pelas costuras também não, pode cheirar a combustível e embriagar-nos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

São dias

Sabes, aquela sensação de sufoco, em que dás por ti a respirar fundo, segurando momentaneamente a respiração, porque é a única maneira que conheces para prenderes as lágrimas mais um pouco dentro de ti. E logo a seguir a raiva, pensas que é a tristeza, mas não é. A tristeza é bonita de mais para que os outros a possam ver, é só tua, e tu sabes que não vais querer partilha-la com ninguém. A seguir tens aquele nó na garganta e sentes uma inquietação a percorrer-te o corpo, começas a tremer a perna, a estalar os dedos, róis as unhas, suspiras cada vez mais fundo. A esta altura os teus olhos já estão tão cheios que começas a ver a visão turva, como se tivesse começado a chover e não houvesse para onde escoar a água. Se alguém olha para ti finges que tens qualquer coisa no olho, uma pestana serve perfeitamente para a ocasião, não tens bem a certeza se acreditam, torces para que sim. Desvias o olhar para vários sítios, porque achas que vais engana-los, aos olhos, - não, agora não - pensas. O esforço é tanto que neste momento as tuas narinas abrem e fecham, aprendeste também isto, para prolongar a demora. Depois é uma questão de segundos até começar a escorrer água pela tua cara. Se chegares até aqui sabes que já não há nada a fazer e o melhor é colaborares. Sentes um certo alívio. Quando acabares sabes que toda a superfície de pele imediatamente abaixo dos teus olhos vai arder, olhas ao espelho, o quão mal pode estar. Passas água pela cara e respondes o resto do dia "dormi mal, são olheiras de cansaço". Sabes que à noite, quando agarrares a almofada com um abraço, vais repetir tudo, mas de um modo mais natural, afinal já o fazes há anos, e vais pedir-lhes, às lágrimas, que te embalem até adormeceres. E acredita, jamais alguém fará tão brilhante trabalho.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

das (des)ilusoes

Quando me perguntavam o que é que eu gostava menos que me fizessem, costumava responder com “entristecer-me”, ou “mentir-me”; mas hoje, senti pela primeira vez o poder que o desmoronar de tudo aquilo em que acreditamos tem em nós.
Por isso, a partir de hoje quando me perguntarem, vou responder a todos os que me perguntarem, que o que mais detesto que me façam é iludir. É desnecessário, e vivíamos melhor se fossemos todos tão sinceros com os outros, como exigimos que sejam connosco

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Maos ao abandono

Lembra-te, uma mão que brinque com os teus sentimentos é uma mão que deves largar. Mas nunca deves não expressar-te e nunca deves impedir-te de escrever às desilusões. Faz parte. Tudo faz parte. Avançar para o desconhecido, à aventura. Mas saber no momento certo se não merecemos recuar. O teu amor-próprio é quem dita as regras do jogo. É quem te diz o que tu mereces quando o coração se esquece e a cabeça já não vê que os pés te pesam menos que a alma. Lembra-te disso.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Animus #2

Tornei-me um bicho frio. Continuo a ter um coração grande, em demasia como tantas vezes partilho por aqui, mas mutei-me num auto-controlo que não sinto como pele. Não parece minha, esta frieza perante afectos tão claros, tão teus. Talvez seja o meu gato, cá de dentro, escaldado e com medo de mais uma banhada de água gelada. É inverno e sou mais de me enrolar nas mantas e observar, enquanto os humanos se envolvem em histórias de amor, com jeitos de filme de Domingo à tarde. Fico assim, vendo o jogo de fora, na esperança que os joelhos sarem porque, como me ensinaram, foram feitos para esfolar. A problemática prende-se com o facto de que os meus já são só pele e osso, é preciso curar ou o próximo passo é a quebra. E, acredita em mim, não me queres quebrar. Posso ser um bicho frio mas corre-me no sangue o calor latino de quem não se deixa domar.
 E duvido que isto, como o coração grande em demasia, alguma vez mude.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ambar


- Ensina-me a ser fria. Não quero mais ser amor, quero um coração-gelado.
- Tens de ser muito magoada, atingir o limite da tua dor. saturar. depois recusares-te a voltar a sentir essa dor. Não recomendo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Chegadas ?

Não estivemos contigo neste momento mais doloroso - é verdade. Mas verdade também é que, lá no fundo, nós já não sabemos estar contigo. Por mais que doa, por mais memórias conjuntas que tenhamos tido, a realidade é que já não nos conhecemos umas às outras.
Tu foste, tal como Camões "para mares nunca antes navegados" e nós ficamos em porto, a ver-te afastares-te sem uma palavra de despedida. Mas também não fomos os teus velhos do Restelo. Nós calámos magoadas as nossas almas e não levantamos suposições quanto às tuas acções (ou talvez ao inicio o tenhamos feito um pouco - porque a verdade é que nos custou bastante perceber o porquê. Porque é que nos deixas-te, porquê a nós que sempre te demos tudo o que podíamos e o que não podíamos). Chorámos cada uma para si as suas lágrimas em Belém, com sentimentos revoltosos naquela Praia das Lágrimas que outrora foi história na vida de alguém - tal como tu.
Porque nós éramos nós, e tu não eras mais um navegador português, tu eras o nosso Vasco da Gama. O barco não se afundou, porque também não deixámos que nos perdêssemos da mira. Lutámos contra o Adamastor e contra Baco e procurámos a nossa salva Ilha dos Amores. O sebastianismo ficou até ao dia, em que perdemos a fé. Dói tanto dizer, mas devias ter chegado mais cedo, com o nevoeiro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Animus

Talvez, cá dentro, eu seja um gato.
Esta frase surgiu-me ao encontrar uma imagem que me fez perceber isso mesmo. Talvez eu seja mesmo um gato, no que toca a características do dentro. A capacidade de me aninhar é-me inerente e vitalícia, há poucas coisas que faça tão bem como isso. Da mesma forma que observo, com olhos de gato, tudo o que me rodeia e leio o Universo como quem descobre e lhe ganha o tacto. Talvez eu seja nada mais nada menos que um gato matreiro, demasiado independente mas, na mesma proporção, demasiado carente para não pedir colo e aninhar-me, como só os gatos sabem fazer. Murmurar como quem ronrona e fixar como quem vê.

domingo, 6 de novembro de 2011

status quo


« Todos os dragões da nossa vida são talvez princesas que esperam ver-nos um dia belos e corajosos. Todas as coisas aterradoras não são mais, talvez, do que coisas indefesas que esperam que as socorramos.» Rickle

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Chocámos, tu e eu

Conheço todas as fases do processo. Esta, a que me assombra agora, chama-se ressaca. A casa fala-me de ti e finjo não ouvi-la mas a verdade é que me mói tanto que se instala uma dor de cabeça e não há medicação que me valha. Porque a dor não é na cabeça, no fundo. A dor é generalizada e parte do músculo dos sentimentos, que bombeia sangue porque tem de ser, não porque me apeteça muito andar por aí cheia de energia. Esta etapa é de ressaca porque consigo ouvir o teu riso na cozinha, apesar de ter o rádio bem alto enquanto invento qualquer coisa para jantar. O corpo enche-se de tremores quando me sento neste vazio e fixo a parede que me enjoa, de tão branca que é.
Uma náusea invade-me e entro em espiral, sem querer. Porque aqui não há quereres, sabias? Pouco mando nisto que um dia me deram como corpo. Vai respirando, alimentando-se, porque tem de ser, como o coração que insiste em bater. Não é um discurso derrotista, calma. É só uma fase, como todas as outras que sei que se seguem. E se beber litros de água costuma ajudar, nas verdadeiras ressacas depois de noites bem regadas, talvez aqui também funcione. Talvez a água me inunde e lave esta latência, este querer-não-querer que me assola porque estás inevitavelmente ausente.
E agora, que falei de água, mais uma lembrança de ti me atormenta porque tudo em ti sabia a mar. A noites de Verão e a maresia.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O ninho

A avó costumava chamar-me passarinho. Eu gostava e respondia pela alcunha. Sentia o carinho fluir, quase como se me acarinhasse nos cobertores à noite. Agora que sou mais crescida talvez perceba o porquê deste diminutivo ternurento.
O passarinho sempre quis abrir asas, sempre ambicionou voar mais alto e sair do ninho, cedo, cedinho. Não queria dar satisfações a ninguém e isso fez com que caísse, vezes e vezes sem conta, por ainda fraquejar nas primeiras esvoaçadelas e não saber o Norte a nada. Tudo era reluzente e atraía-a no mesmo ritmo estonteante com que uma melga é puxada para a luz. Aprendeu a custo, na maior parte dos casos, mas acabava sempre por alisar as asas, muitas vezes debaixo da asa de outros que a tomavam como protegida, e recomeçava.
O passarinho sempre teve um coração maior que o frágil corpo que o albergava e acreditar era o verbo de todos os dias. Não desistia porque, no fundo da sua terna alma, sabia que desistir não era traço seu. Como? Sabia-o, como quem se descobre. Umas vezes alterava o curso da viagem, outras descobria-se em sítios desconhecidos, mas nada temia. Era um passarinho valente. É um passarinho valente. Viveu e amadureceu com essa consciência e, talvez por isso, seja tão difícil admitir que em algumas ocasiões, custa.
Dói, sente o coração apertar-se e bombear com toda a força o sangue que lhe corre nas veias, gritando independência. Porque há dias em que não tem vontade de ser crescida. Há dias em que sente uma falta gigantesca da asa da mãe e dos vôos do pai e só quer regressar ao ninho e ser. Simplesmente ser.