quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Até ao dia *

O Mundo desaba todos os dias em cima de cada um de nós. Desaba, para aqueles que querem construir, que despendem tempo a procurar, que tentam arranjar a melhor forma de ficar. Mas tudo cai por terra, em cada dia que passa; tudo se ergue no seguinte, que está para chegar. A doce ilusão do nascer do Sol - quando na verdade ele nem chega a morrer. Aí, volta-se a aclamar as mãos e sobem-se degraus consecutivos na espiral emocional, enquanto se carregam sonhos e afazeres; retratos a carvão e cores de tempo. Para quê? Para no final do dia, se vir por ali abaixo, aos trambolhões.

Há outros Mundos que não desabam. Há Mundos de gentes que nunca caem e há gentes que nunca sentem o seu peso. Receio que quando o sentirem, será de uma só vez... estarão estagnados e imersos no subsolo. Não se deram, não souberam sequer receber. Nunca subiram e por isso nunca caíram; mas foram engolidos. É nesse momento que haverá alguém que escava: um desses, dos que trepam e beijam a terra. Haverá um desses, em que o Mundo constantemente desaba, que resgatará os presos da alma. Haverá... até ao dia em que ninguém esteja mais disposto a gastar as mãos na terra de quem tomou por garantido o ar; até ao dia em que nas cicatrizes dos ombros, onde os tectos de todos e mais alguns Mundos estilhaçaram e caíram em ruínas quase tão exagerada, como dolorosamente, tenham nascido asas.

« I can't really say
why everybody wishes they were somewhere else
but in the end, the only steps that matter
are the ones you take all by yourself »
The Weepies - Can't Go Back Now

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